Flavescência dourada - Do início ao presente    

Última atualização: Março de 2026

Flavescência Dourada da Videira

Uma doença sem cura, transmitida por um inseto — conhecer os sintomas e agir cedo é a única defesa

O que é a Flavescência Dourada

A Flavescência Dourada (FD) é considerada a doença que causa maiores danos na vinha. É provocada por um fitoplasma (Grapevine flavescence dorée phytoplasma) — um organismo unicelular que parasita as células do floema da videira, e que também sobrevive na hemolinfa do inseto que o transmite.

Ao contrário das doenças causadas por fungos ou bactérias, a FD não tem tratamento curativo (só pelo calor, em material de propagação). Uma vez infetada, a videira permanece infetada durante toda a sua vida. As consequências vão desde quebras de produção até à mortalidade parcial ou total das cepas — uma epidemia pode destruir uma vasta área de produção em apenas três anos.

Organismo de quarentena — Diretiva Comunitária 2000/29/CE
O inseto vetor — Scaphoideus titanus

A doença não se transmite diretamente de planta a planta — precisa de um inseto vetor, o cicadelídeo Scaphoideus titanus Ball, que se alimenta da seiva da videira e injeta o fitoplasma ao picar novas plantas.

Scaphoideus titanus visto à lupa
Visto à lupa, sobre uma folha de videira
Scaphoideus titanus adulto
Adulto
Ninfa pré-alada e larva
Ninfa pré-alada e larva

Originário do norte dos Estados Unidos da América, terá surgido na Europa na década de 50, no sul de França. A sua dispersão pelo continente está associada à circulação de material vegetal de videira (propagação vegetativa) transportando ovos — dispersou-se pelo norte de Itália, Suíça, Espanha, Eslovénia e Portugal, com registos também na Sérvia, Hungria, Áustria e Croácia.

Como se processa a infeção
①
Aquisição

O inseto adquire o fitoplasma ao alimentar-se de uma videira já doente.

②
Incubação

Cerca de 1 mês na hemolinfa do inseto, até atingir as glândulas salivares.

③
Transmissão

Ao alimentar-se, o inseto injeta o fitoplasma nas nervuras das folhas de outra videira.

Evolução da doença em Portugal
1999 — O Scaphoideus titanus é capturado pela primeira vez em Portugal, em Arcos de Valdevez; no mesmo ano, a ADVID refere também a sua presença em Vila Real.
2000 — Confirmação oficial em Vila Real, no âmbito do programa oficial de prospeção.
2006 — Primeiro resultado oficial positivo para Flavescência Dourada em Portugal, na região de Entre Douro e Minho.
2007 — Início de uma prospeção mais alargada; constata-se uma grande dispersão do inseto na região.
2008 – 2009 — Face aos resultados, a prospeção é intensificada.
2010 — Todas as freguesias com expressão vitícola da região são prospetadas.
2011 — A prospeção estende-se à região de Trás-os-Montes.

Fontes: DGADR e DRAPN

Mapas de dispersão — inseto vetor e doença

A prospeção realizada entre 2001 e 2011 permite visualizar, lado a lado, a área onde foi encontrado o inseto vetor e a área onde a doença foi de facto confirmada — o inseto está presente numa zona bastante mais alargada do que a doença, o que ajuda a explicar onde é mais provável a Flavescência Dourada vir a surgir a seguir.

Prospeção de Scaphoideus titanus, 2001 a 2011
Prospeção do inseto vetor Scaphoideus titanus — 2001 a 2011
Prospeção da Flavescência Dourada, 2006 a 2011
Prospeção da própria doença (material vegetal) — 2006 a 2011
Mapa de freguesias afetadas, DRAPN
Detalhe por freguesia — doença (vermelho) e inseto vetor (verde). Fonte: DRAPN
Freguesias do concelho de Mondim de Basto
Concelho de Mondim de Basto — freguesia de Atei, onde a doença foi confirmada
Sintomas — como reconhecer uma cepa afetada

Os sintomas surgem tipicamente a partir de meados do verão, e são mais visíveis nas folhas e nos cachos. Clique em qualquer fotografia para a ampliar.

Aspeto geral de uma cepa positiva
Aspeto geral de uma cepa positiva
Folhas com bordos enrolados
Folhas com bordos enrolados
Folhas com margens enroladas e vara prostrada
Folhas com margens enroladas e vara prostrada
Ramo com entrenós mais curtos
Ramo com entrenós mais curtos
Ráquis seco e bagos murchos
Sintomas no cacho — ráquis seco, bagos murchos
Ramo com folhas enroladas e cloróticas
Ramo com folhas enroladas e cloróticas
Folhas com enrolamento e cor dourada metalizada
Enrolamento e cor dourada metalizada
Enrolamento nos lançamentos jovens
Enrolamento nos lançamentos jovens (meados de julho)
Cacho sem produção, desavinho
Cacho sem produção / desavinho
Detalhe do enrolamento das folhas
Detalhe do enrolamento foliar
Folhas dispostas em escama de peixe
Folhas dispostas em "escama de peixe"
Sintoma observado em campo
Observação em campo
Concelhos e freguesias com registo da doença á época

Lista de freguesias onde foi registada a presença da Flavescência Dourada, por concelho:

Concelho Freguesias
Amarante (2011)Figueiró (Santa Cristina)
AmaresAmares, Barreiros, Besteiros, Bico, Bouro (Santa Marta), Caires, Carrazedo, Dornelas, Ferreiros, Figueiredo, Lago, Portela, Prozelo, Rendufe e Vilela.
BarcelosAdães, Areias de Vilar, Barcelinhos, Manhente, Mariz, Perelhal, Rio Covo (Santa Eulália), Silva, Silveiros e Ucha.
BragaAdaúfe, Crespos, Figueiredo, Mire de Tibães, Navarra, Nogueira, Palmeira, Penso (Santo Estêvão), Pousada, Semelhe e Tadim.
Castelo de Paiva (2011)Sobrado
FafeAgrela e Serafão
GuimarãesBriteiros (Salvador), Briteiros (Santa Leocádia), Briteiros (Santo Estêvão), Longos, Sande (São Lourenço), Sande (São Martinho), São Torcato, Souto (Santa Maria) e Souto (São Salvador).
Mondim de BastoAtei.
Ponte da BarcaOleiros
Ponte de LimaGondufe e Serdedelo.
Póvoa de LanhosoFonte Arcada e Lanhoso.
Terras de BouroBalança.
Vila RealFolhadela
Vila VerdeCoucieiro, Esqueiros, Geme, Pico, Sabariz, Soutelo e Vila de Prado.
Medidas profiláticas e de contenção
  • Utilização de material de propagação são;
  • Arranque sistemático das cepas doentes e sua queima;
  • Desvitalização e arranque das vinhas abandonadas, seguidos de queima;
  • Queima da lenha de poda, para eliminar os ovos postos durante o verão;
  • Deteção ao longo do ciclo vegetativo da presença do inseto;
  • Utilização de tratamento inseticida contra o cicadelídeo vetor.
Luta química recomendada á época
Concelhos onde a doença foi identificada

Três tratamentos: um no estado larvar (ninfas), dois no estado de adulto.

Restantes concelhos com presença do inseto vetor

Dois tratamentos: um no estado larvar (ninfas), outro aos adultos.

Insecticidas autorizados (Scaphoideus titanus Ball) — após maio de 2011
Nome comercial Substância ativa I.S. (dias) Alvo biológico
ACTARA 25 WG (PI) — máximo 3 aplicações, dose 150 g pc/ha Tiametoxame 14 Ninfas e adultos
DINAMITE (PI) — máximo 1 aplicação, dose 100-150 ml pc/hl Fenepiroximato 14 Ninfas e adultos

Consulte sempre a circular de Avisos Agrícolas em vigor para confirmar produtos e doses homologadas atualizadas.

Legislação aplicável á época

A Flavescência Dourada é um organismo de quarentena, constante da Diretiva Comunitária n.º 2000/29/CE, de 8 de maio, transposta para o direito nacional pelo Decreto-Lei n.º 154/2005, de 6 de setembro. A Portaria n.º 976/2008, de 1 de setembro, estabelece as medidas de proteção fitossanitária aplicáveis.

Nota: os restantes artigos devem ser consultados na Portaria n.º 976/2008.

🦟 Na atualidade, há obrigatoriedade de Tratamentos contra o Scaphoideus titanus

A luta contra a cigarrinha Scaphoideus titanus, vetor da Flavescência Dourada da Videira, é obrigatória nas zonas definidas pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).

Esta obrigação resulta de um conjunto de medidas fitossanitárias em vigor, nomeadamente:

  • Portaria n.º 267/2023, que estabelece as medidas de proteção fitossanitária para a erradicação e contenção da Flavescência Dourada.
  • Despacho n.º 69/G/2026, que identifica as freguesias onde foi detetada a presença do vetor Scaphoideus titanus e define o número de tratamentos obrigatórios.
  • Edital n.º 1/2026/FD_ST, que notifica a aplicação obrigatória das medidas fitossanitárias destinadas ao controlo da doença e do seu vetor.

Nas freguesias abrangidas pelas medidas em vigor, os viticultores são obrigados a realizar tratamentos inseticidas para controlo do vetor, podendo ser exigidos 1, 2 ou 3 tratamentos por ano, de acordo com a classificação fitossanitária da respetiva freguesia.

Para confirmar o número de tratamentos obrigatórios aplicáveis à sua exploração, deverá consultar a lista de freguesias abrangidas pelo Despacho n.º 69/G/2026 e a informação disponibilizada pela DGAV.

Consultar informação oficial da DGAV

Conclusões
  • Nas freguesias onde estão confirmados focos de FD, os tratamentos ao Scaphoideus titanus são obrigatórios.
  • É imperioso que todos os agricultores tratem as suas vinhas, para conter a progressão da doença.
  • Devem seguir-se atentamente as recomendações de tratamento veiculadas nas circulares de avisos agrícolas.
  • O empenho e o profissionalismo de técnicos e viticultores é fundamental para o controlo de uma das doenças mais importantes da vinha.
Fontes:DGAV, DGADR, DRAPN — Estação de Avisos de Entre Douro e Minho, ADVID
Agradecimentos: Maria Manuel Mesquita, Joaquim Guerner Moreira e Carlos Coutinho ( Estação de Avisos de Entre Douro e Minho )