Fogo Bacteriano - Do início ao presente     i

Última atualização: Setembro de 2026

Fogo Bacteriano

Erwinia amylovora — a bactéria de quarentena que ameaça macieiras, pereiras e marmeleiros

Ramos secos, aspeto queimado
Ramo em cajado de pastor
Flores secas
Fruto negro junto a fruto são
O que é o Fogo Bacteriano

O Fogo Bacteriano (bacterial blight, em inglês; feu bactérien, em francês) é causado pela bactéria de quarentena Erwinia amylovora (Burrill 1882) Winslow et al., e é considerado o agente causal de bacteriose mais grave em pomóideas. Pode afetar fruteiras e ornamentais da família das rosáceas, causando importantes perdas económicas em macieiras, pereiras e marmeleiros.

Quadro de plantas hospedeiras do Fogo Bacteriano
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Exceto frutos e sementes — mas incluindo pólen para polinização, que também pode veicular a bactéria.

Taxonomia: Bacteria, Gracilicutes, Proteobacteria (subdivisão γ), Enterobacteriales, Enterobacteriaceae.

Organismo de quarentena — Diretiva 2000/29/CE Portugal tem estatuto de Zona Protegida
Origem e distribuição mundial

A doença foi identificada pela primeira vez na América do Norte, por Burrill em 1883 — área considerada o seu centro de origem geográfica. Em 1920 foi reportada na Nova Zelândia. Chegou à Europa em 1957, introduzida em Inglaterra, e desde então dispersou-se pela maior parte do continente.

A distribuição mundial atual pode ser consultada no mapa oficial da EPPO (European and Mediterranean Plant Protection Organization) — presente com registo nacional ou subnacional em praticamente toda a Europa, no Médio Oriente, no Norte de África, na América do Norte e na Nova Zelândia.

Quando surgiu, e como evoluiu em Portugal
2005 / 2006 — Primeiro foco identificado em Portugal, no Fundão. As fontes consultadas não são inteiramente consistentes quanto ao ano exato — todas as plantas infetadas foram destruídas nessa altura.
2010 — Novos focos identificados na região do Oeste, no concelho de Alcobaça.
2011 — Confirmados novos focos: na região Oeste (Torres Vedras, Caldas da Rainha e Bombarral), na região Centro (Guarda e Viseu) e no Alentejo (Ferreira do Alentejo e Alandroal). Em outubro, é publicada a Portaria n.º 287/2011, estabelecendo as medidas de erradicação em vigor.
2012 — Contenção dos focos já identificados, com aplicação do Plano de Ação Nacional. Três novos focos: um pomar de marmeleiros em Campo Maior, e dois focos em material de multiplicação num viveiro em Coimbra — em todos os casos aplicadas as medidas legais (arranque e destruição das plantas, quarentena mínima de 2 anos ao viveiro afetado).
2013 — Situação em avaliação, com prospeção ativa em todo o território.

Fontes: DGADR, DRAPN e INIAV

Mapas de prospeção e distribuição em Portugal

A prospeção na Região Norte, entre 1999 e 2012, distinguiu duas realidades: as zonas de produção frutícola (onde a doença foi de facto detetada) e a rede mais alargada de viveiros, centros de jardinagem e campos de pés-mãe, sujeita a vigilância preventiva.

Mapa de prospeção na Região Norte, 1999 a 2012
Região Norte — prospeção 1999 a 2012. Verde-escuro: regiões de produção frutícola com foco confirmado (Carrazeda de Ansiães, Lamego, Armamar, Moimenta da Beira, Tarouca, Sernancelhe). Verde-claro: rede de viveiros, centros de jardinagem e campos de pés-mãe sob vigilância.
Distribuição nacional dos focos
Distribuição nacional dos focos confirmados, por distrito
Ciclo biológico
Ciclo biológico de Erwinia amylovora
Ciclo biológico anual — fonte: INIAV
Primavera

Infeções primárias — inóculo que sobreviveu em cancros, tempo quente e húmido, infeção das flores com lesões hidrópicas, murchidão, desidratação e queima.

Verão

Progressão da doença — infeção dos raminhos e, depois, dos frutos, com a bactéria a progredir internamente na planta.

Outono

Fim do ciclo — desenvolvimento de cancros nos ramos e no tronco, onde a bactéria fica quiescente até à primavera seguinte.

Sintomas — como reconhecer uma planta afetada

O sintoma mais característico é o aspeto queimado das folhas e ramos da planta afetada — daí o nome comum da doença. Clique em qualquer fotografia para a ampliar.

Aspeto geral de uma árvore afetada
Aspeto geral — ramos com aparência de queimados
Curvatura dos ramos jovens, em cajado de pastor
Curvatura dos ramos jovens ("cajado de pastor")
Árvore jovem com ramo em cajado de pastor
Rebentos terminais secos, dobrados sobre si mesmos
Fruto e pedúnculo negros
Frutos jovens e pedúnculos negros
Fruto são ao lado de um ramo morto
Fruto ainda são, junto a um ramo já necrosado
Folhas secas mas aderentes ao ramo
Folhas dos ramos afetados ficam aderentes, mesmo secas

Outros sinais característicos: lesões hidrópicas nos frutos que evoluem para necroses, com presença de exsudado bacteriano; cancros de cor castanha a negra em ramos e troncos, com rachamento da epiderme entre o tecido são e o doente.

Principais fatores de risco
  • Presença de elevados níveis de inóculo;
  • Temperatura superior a 15ºC durante o período de floração;
  • Presença de insetos polinizadores;
  • Humidade relativa elevada (55% ao nível do estigma da flor, a 80% ao nível do hipanto);
  • Presença de gomos secundários, em pereira.

Nem todas as variedades são igualmente suscetíveis. Um projeto de avaliação global da suscetibilidade de variedades autóctones de Pyrus e Malus (Projeto Proder InovPomo, PA 49448) mediu a dimensão das lesões causadas pela bactéria: variedades de Malus domestica mostraram-se as mais resistentes (lesões médias de 1,50 cm), seguidas pelas variedades de Pyrus communis (2,48 cm), com os clones de P. communis cv. Rocha a apresentar a maior suscetibilidade (5,74 cm).

Entre as cultivares a vigiar com particular atenção, destacam-se: Bravo de Esmolfe, Passe Crassane e General Leclerc.

Como se dissemina a doença
A curta distância

Insetos, utensílios de poda, máquinas e equipamentos agrícolas, pássaros, chuva, vento, e o próprio Homem.

A longa distância

Circulação de material vegetal contaminado com infeções latentes, aves migratórias, e correntes de ar.

Meios de proteção
Controlo biológico (investigação)

Têm sido estudadas estirpes de Pseudomonas fluorescens, Pantoea agglomerans, Erwinia tasmaniensis, Bacillus subtilis e Rhanella aquatilis, entre outras, com atividade competitiva na colonização dos estigmas das flores — antes de a bactéria patogénica se instalar — e produção de antibióticos naturais por algumas destas estirpes. A eficácia depende do estado fenológico e da temperatura.

Controlo químico

A pulverização com produtos cúpricos, de preferência à queda da folha, após a poda e antes do abrolhamento, confere uma proteção preventiva variável. Existem produtos autorizados para o combate ao Fogo Bacteriano — a lista atualizada deve ser consultada junto da DGAV.

A utilização de antibióticos não é permitida pela legislação (por exemplo, estreptomicina ou kasugamicina).

Modelos de previsão

A implementação de sistemas de avisos apoiados em modelos previsionais — de sucesso variável — pode contribuir para uma utilização mais adequada de alguns produtos químicos, e maior eficácia no controlo da doença.

MARYBLYT (Steiner, 1990)

Soma do número de horas com temperatura superior a 18,3ºC, a partir do estado fenológico de botão rosa, até um nível cumulativo crítico de 110 horas.

COUGARBLIGHT (Smith, 1990)

Soma do número de horas com temperatura superior a 15,5ºC, para um grupo de quatro dias contíguos.

O que fazer, na prática
  • Atuar preventivamente — ainda não existem tratamentos curativos;
  • Na plantação de pomares, utilizar sempre plantas certificadas, com passaporte fitossanitário;
  • Estabelecer hábitos regulares de vigilância dos pomares, sobretudo na floração e no crescimento;
  • Perante qualquer sintoma suspeito, não hesitar — enviar amostras para análise laboratorial;
  • Não esconder os sintomas — colocar em risco o próprio pomar, e os dos vizinhos.
Podas e mondas
  • Iniciar as podas nas zonas menos afetadas do pomar, progredindo para as mais afetadas;
  • Desinfetar sempre os equipamentos de corte entre plantas;
  • Cortar todo o material infetado para dentro de recipientes apropriados;
  • Queimar todo o material resultante, no próprio local (Decreto-Lei n.º 124/2006, artigo 28.º, n.º 4);
  • No abrolhamento, eliminar manualmente inflorescências fora de época e ramos com sintomas;
  • Realizar podas que favoreçam a máxima iluminação da copa.
Arranque e destruição

Em árvores muito infetadas, pode ser necessário eliminar a pernada inteira, ou mesmo arrancar a árvore — as que tenham o tronco infetado devem ser sempre arrancadas.

Zona protegida

Uma "Zona Protegida" é a parte do território comunitário onde a bactéria não está estabelecida, apesar de existirem condições favoráveis para o seu estabelecimento — reconhecimento resultante de exames oficiais no âmbito de um programa de prospeção (Regulamento (CE) n.º 690/2008).

Portugal detém este estatuto, tal como Estónia, Letónia, Finlândia, Irlanda e Lituânia (além de partes do território de Eslováquia, Eslovénia, Espanha, França, Itália e Reino Unido). Na prática, isto significa exigências acrescidas na circulação de plantas hospedeiras — os vegetais que entram numa Zona Protegida precisam de um passaporte fitossanitário com marca ZP, identificando o operador económico, a espécie e o número de posição de Erwinia amylovora no regulamento das Zonas Protegidas (b)2).

Medidas de erradicação e contenção — Portaria n.º 286/2011
Medidas específicas em viveiros
Numa zona contaminada

Arranque e destruição imediata, sob controlo oficial, de todos os vegetais hospedeiros do local — incluindo porta-enxertos, borbulhas ou garfos.

Numa zona de segurança (1 km de raio)

Inspeções duas vezes por ano; movimento de plantas produzidas no viveiro só com autorização expressa da DRAP competente.

As plantas-mãe estão proibidas em pomares de freguesias em zona contaminada ou de segurança. Durante um período transitório de 4 anos, é exigida a marcação, registo e amostragem oficial das árvores produtoras de borbulhas ou garfos.

Conclusões
  • O Fogo Bacteriano é uma realidade na maioria dos países da Europa;
  • Em Portugal, já foi identificado nas regiões Centro, Oeste, Alentejo e Norte;
  • Não existem soluções milagrosas — a atuação preventiva é a única defesa eficaz;
  • O problema é controlável, desde que enfrentado com essa expectativa;
  • O empenho e o profissionalismo de técnicos e produtores é fundamental para o seu controlo.

Fontes: DGAV, DGADR, DRAPN, INIAV – Laboratório de Fitobacteriologia.

Agradecimento a Maria Manuel Mesquita pela orientação desta página e pelo fornecimento de material informativo.