Vespa das galhas do castanheiro. Do início ao presente

Última atualização: Março de 2026

Vespa das Galhas do Castanheiro

Dryocosmus kuriphilus — uma ameaça à produção de castanha, e a luta biológica que a tem vindo a conter

Galha jovem a formar-seAdsd
Ramo com várias galhas
Torymus sinensis em detalhe
Torymus sinensis sobre um ramo
O que é a Vespa das Galhas do Castanheiro

A Vespa das Galhas do Castanheiro (Dryocosmus kuriphilus Yasumatsu) é um pequeno inseto himenóptero, originário da China, que se tornou uma das pragas mais graves do castanheiro em todo o mundo. Está classificada na Lista A2 da OEPP (Organização Europeia e Mediterrânica para a Proteção das Plantas) desde 2003.

A fêmea deposita os ovos no interior dos gomos do castanheiro. Ao eclodirem, as larvas alimentam-se dos tecidos internos, provocando o aparecimento de galhas — deformações arredondadas, de cor esverdeada a avermelhada — em vez de ramos, folhas e flores normais. É dentro destas galhas que as larvas se desenvolvem, protegidas de quase todos os meios de combate.

Luta química ineficaz — os inseticidas não alcançam o interior das galhas

O nome muda de língua para língua: em português, "vespa" (desde 2014); em francês, cynips (2005); em inglês, gallwasp; em italiano, cinipede (2002); em espanhol, avispilla (2012).

Origem e distribuição mundial

A praga é originária da China. A partir daí, dispersou-se progressivamente por vários continentes, sempre associada à circulação de material vegetal de castanheiro:

Mapa de distribuição mundial
Distribuição mundial da praga, por ano de primeiro registo
1941 — Japão
1963 — Coreia
1974 — Estados Unidos (Geórgia)
2002 — Itália
2005 — França e Eslovénia
2009 — Hungria
2010 — Croácia e Córsega (França)
2012 — Alemanha e Espanha
2014 — Portugal, em Barcelos (freguesias de Aguiar e Igreja Nova) e Ponte de Lima (freguesia de Sandiães)
Quando surgiu em Portugal

A primeira deteção na Região Norte ocorreu a 28 de maio de 2014, na freguesia de Aguiar, concelho de Barcelos — em dois castanheiros bravios, de povoamento disperso, não podados, com mais de 50 anos, localizados junto a um assento de lavoura e a uma linha de caminho de ferro. Quase em simultâneo, foi também detetada em Ponte de Lima, na freguesia de Sandiães.

A partir destes dois focos iniciais, a praga expandiu-se progressivamente por toda a Região Norte — e, mais tarde, também para a Região Centro — como se pode ver na secção de evolução mais abaixo.

A resposta imediata: as Zonas Demarcadas

Entre junho e outubro de 2014, foi executado um programa de prospeção que cobriu 41 concelhos (31 no Entre Douro e Minho, 10 em Trás-os-Montes) e 772 freguesias. A praga foi confirmada em 11 concelhos e 71 freguesias, todos no Entre Douro e Minho: Amarante, Amares, Baião, Barcelos, Castelo de Paiva, Cinfães, Esposende, Melgaço, Ponte de Lima, Resende e Vila Verde. Em Trás-os-Montes, a presença da praga ainda não tinha sido detetada nesta primeira campanha.

A partir de cada foco, foram delimitadas Zonas Demarcadas: um raio de 5 km em redor do foco (Zona Infestada), rodeado por mais 10 km de Zona-Tampão — no total, três Zonas Demarcadas ficaram estabelecidas na Região Norte, em Melgaço, Barcelos e Baião/Cinfães.

Ciclo biológico e sintomas ao longo do ano
Ciclo biológico do Dryocosmus kuriphilus
Ciclo biológico anual — ovos, larvas, pupas, adultos

O ciclo é anual, e os sintomas mudam de aspeto consoante a estação:

Sintoma no outono
Outono — galhas secas já vazias, deixadas do ciclo anterior
Sintoma no inverno
Dezembro a fevereiro — gomo normal ao lado de uma galha seca do ano anterior
Galha a formar-se na primavera
Abril/maio — dos gomos, em vez de ramos, surgem galhas
Fevereiro / Março

Antes da rebentação, todos os gomos parecem iguais — infetados e não infetados. Alguns já têm ovos no interior (0,1 a 0,2 mm).

Abril / Maio

Em vez de ramos bem formados, surgem galhas. No interior, formam-se de 1 a 3 galerias com as larvas.

Junho / Julho

Os adultos saem das galhas, abrindo um pequeno furo, e deixam-nas vazias. Cada vespa vive cerca de 10 dias — tempo suficiente para pôr uns 100 ovos noutros gomos.

Agosto a Março

As larvas de 1º estádio desenvolvem-se lentamente dentro do gomo, prontas para reiniciar o ciclo na primavera seguinte.

Impacto na produção

Cada gomo afetado origina, em média, duas a três vespas; e cada vespa põe cerca de 100 ovos — ou seja, um único gomo infetado pode dar origem a 200 a 300 novas vespas no ano seguinte. O efeito sobre a produção agrava-se rapidamente, ano após ano:

Ano após a infestação Quebra de produção
1º anoPraticamente normal
2º anoCerca de 30 a 50%
3º anoCerca de 50 a 70%
4º anoMais de 70%

Existem diferenças de suscetibilidade entre variedades: um estudo de oito anos (2005-2012) a 62 cultivares de castanheiro identificou 14 muito suscetíveis, 19 com suscetibilidade média, 22 pouco suscetíveis e 7 resistentes (Sartor et al., 2015, Scientia Horticulturae).

Meios de dispersão
  • Voo das fêmeas — dispersão local, a curta distância;
  • Vento — transporte de indivíduos a curta distância;
  • Transporte passivo pelo Homem e por veículos;
  • Comércio de plantas jovens e garfos para enxertia, contendo ovos ou larvas — o principal meio de dispersão a grandes distâncias.

Nota: os frutos, o material lenhoso e as embalagens não constituem meios de dispersão da praga.

Evolução da praga em Portugal (2014 – 2018)

A partir dos dois focos iniciais de 2014, em Barcelos e Ponte de Lima, a praga expandiu-se ano após ano por toda a Região Norte. Em outubro de 2018, de 86 concelhos da Região Norte, já tinha sido detetada presença de Dryocosmus kuriphilus em 73. Clique em qualquer mapa para o ampliar.

Expansão da praga, novembro 2014
Novembro 2014 — os dois focos iniciais, em Barcelos e Ponte de Lima
Expansão da praga, maio 2015
Maio 2015 — primeiros focos também em Trás-os-Montes (Valpaços, Bragança, Sernancelhe)
Expansão da praga, agosto 2016
Agosto 2016 — forte concentração no Minho e Douro Litoral
Expansão da praga, outubro 2017
Outubro 2017 — a praga já cobre a maior parte da Região Norte
Expansão da praga, novembro 2018
Novembro 2018 — presença generalizada em quase toda a Região Norte
Distribuição nacional, outubro 2018
Outubro 2018 — vista nacional: a praga já tinha também alcançado a Região Centro
Meios de luta
Luta química

Ineficaz. As larvas estão protegidas dentro dos gomos e das galhas, onde os inseticidas não chegam — as galhas não são órgãos da planta, resultam da alimentação das larvas, e os produtos sistémicos não as alcançam.

Luta cultural

Corte e queima no local, em árvores de pequeno porte, desde o aparecimento das galhas até final de maio.

Luta genética

Híbridos (como o Bouche de Bétizac) e seleção de cultivares resistentes.

Luta biológica

Introdução do parasitoide Torymus sinensis — considerada pela EFSA (2010) uma das formas mais eficazes de reduzir o impacto da praga.

Luta biológica com Torymus sinensis

O Torymus sinensis é também um himenóptero, semelhante ao Dryocosmus kuriphilus, mas que se alimenta das larvas da vespa das galhas — parasitando-as e impedindo o seu desenvolvimento. É o próprio inimigo natural da praga, na sua região de origem.

Libertação de Torymus sinensis junto a uma galha
Libertação junto a uma galha jovem — os parasitoides saem do tubo por si próprios
Torymus sinensis sobre uma folha
Torymus sinensis, já libertado, sobre uma folha de castanheiro
Torymus sinensis, vários detalhes
Fêmea de Torymus sinensis, e pormenores da postura em gomos e galhas jovens
Como se processa a libertação
①
Sem forçar a saída

Os parasitoides são libertados dos tubos em contacto direto com as galhas, saindo por si mesmos, pela manhã e com condições climatéricas normais.

②
Estado fenológico certo

A oportunidade da largada é decisiva — libertações tardias resultam em maior mortalidade dos parasitoides.

③
Nunca cortar as galhas secas

O inseto útil passa o inverno dentro das galhas secas, eclodindo na primavera seguinte para parasitar as larvas novas.

É um processo moroso: os resultados só se tornam claramente visíveis ao fim de 5 a 7 anos. O parasitoide só é introduzido quando a infestação já é elevada, para garantir alimento suficiente para a sua sobrevivência, e precisa de tempo para se adaptar — podendo permanecer recolhido dentro das galhas secas mais de um ano antes de se estabelecer. A experiência italiana, na região de Robilante, mostrou uma diferença muito clara no parasitismo entre 2005 e 2012, à medida que a população de Torymus se foi instalando.

AnoLargadasGalhas colhidasParasitismo
20052812 0000,04%
200612313 2000,86%
20074933 08029,35%

Em apenas três anos, o parasitismo passou de praticamente nulo (0,04%) para quase um terço das galhas analisadas (29,35%) — é este o tipo de curva de instalação que se espera, com um desfasamento semelhante, também em Portugal.

O Plano de Ação Nacional
2014 — Maio: constituição de uma comissão técnica (DGAV, ICNF, DRAPN, INIAV, UTAD, IPB e RefCast). Setembro: apresentação do Plano de Ação Nacional para o controlo da vespa das galhas.
2015 — Entre abril e maio, realizadas 35 largadas de Torymus. Em novembro, já 36 parceiros envolvidos, dos quais 28 municípios.
2016 — 62 largadas realizadas, entre abril e maio.
2017 — 125 largadas realizadas. Criada a Comissão de Acompanhamento, Prevenção e Combate à Vespa das Galhas do Castanheiro (CAPCVC).
2018 — 498 largadas realizadas. Revisão do plano de ação de 2014.
2019 — 713 largadas realizadas — mais do que a soma de todos os anos anteriores.
AnoLargadas de Torymus sinensis
201535
201662
2017125
2018498
2019713
Total em 5 anos1433 largadas

O crescimento é notório: de 35 largadas em 2015 para mais de 700 em 2019 — sinal do alargamento constante da rede de comissões locais e da adesão crescente de municípios e produtores ao longo dos anos.

Cada largada corresponde a um conjunto de 10 tubos, com cerca de 120 fêmeas e 70 machos de Torymus por largada. Os locais são selecionados segundo o grau de infestação (superior a 50%) e a distância entre largadas (2 a 3 km), evitando repetir o mesmo local em anos consecutivos.

A equipa da DRAPN no terreno

Por trás de cada largada e de cada mapa está uma equipa que percorre o território, ano após ano — a prospetar novos focos, a inspecionar castanheiros, a formar as comissões locais e a acompanhar de perto a instalação do Torymus sinensis.

Equipa a inspecionar um castanheiro jovem
Inspeção de um castanheiro jovem no terreno
Equipa reunida num pomar
Ação de formação e divulgação num pomar
Técnico a examinar um ramo
Observação direta de galhas num castanheiro
Equipa junto a uma grande formação de galhas
Junto a uma árvore com forte infestação visível
Equipa Vespa das Galhas do Castanheiro, DRAPN
A equipa "Vespa das Galhas do Castanheiro" da DRAPN, ao longo dos anos
Confirmação externa da estratégia

Em outubro de 2018, o Professor Alberto Alma — coordenador do programa nacional italiano de luta biológica (Labiocin/Bionfocast, do Ministero delle Politiche Agricole, Alimentari e Forestali) — visitou Portugal para avaliar diretamente os soutos onde já se tinham realizado largadas, reuniu com a Comissão de Acompanhamento do Plano Nacional, e participou no Congresso Nacional do Castanheiro, em Bragança.

Confirmação da estratégia de luta biológica em Portugal
Visita do Professor Alberto Alma, outubro de 2018

A conclusão foi clara e encorajadora:

  • O estado dos soutos portugueses não era tão grave como o observado em Itália;
  • Os castanheiros ainda tinham ouriços, e não se encontravam em fase de declínio;
  • Portugal tinha atuado rapidamente — a luta biológica começou apenas 9 meses depois do aparecimento do primeiro foco;
  • A estratégia seguida foi considerada correta, e bem adaptada à realidade portuguesa.
O futuro
  • Manter a pressão da luta biológica — os resultados da luta biológica só se tornam claramente visíveis ao fim de vários anos.
  • Dar continuidade à prospeção, ao mapeamento das zonas infestadas e à luta biológica.
  • Colaborar na adaptação e reprodução do inseto útil — nunca cortar as galhas secas, e preservar a flora envolvente.
  • Criar sinergias entre municípios, organizações do setor, técnicos e produtores, para uma deteção cada vez mais precoce dos novos focos.
  • Continuar a investigação: bioecologia da praga, monitorização do parasitoide, estudo de espécies úteis autóctones e de variedades resistentes.
Um castanheiro leva 300 anos a crescer, 300 a viver e 300 a morrer

Fontes: DRAP Norte, RefCast — Associação Portuguesa da Castanha, DRAM (Região Autónoma da Madeira)

Agradecimento especial a Maria Manuel Mesquita, à data Diretora de Serviços que assegurava a fitopatologia, pela informação disponibilizada.

Para além da fonte informativa, o objetivo desta página é o de perpetuar a memória de uma tarefa bem delineada e executada pelos serviços públicos a pensar em Portugal.